Qual o melhor modelo do Master System?

A ideia deste artigo surgiu de uma discussão que eu acompanhei na Comunidade Master System no Facebook. A pergunta era similar a essa do título e pedia para que as pessoas escolhessem entre o primeiro e o segundo modelo do console.

Para mim não há dúvidas de que o primeiro modelo é tecnicamente melhor, mas muita gente defendeu o segundo modelo. Pode parecer uma escolha um tanto estranha, mas compreendo esse pessoal. O segundo modelo foi o que eles tiveram em sua infância ou adolescência, e aí a nostalgia fala mais alto que os aspectos técnicos.

Eu tive um Master System II da Tec Toy na minha infância, então quando decidi readquirir esse console depois de adulto não pensei duas vezes: quis novamente o Master System II da Tec Toy.

Master System II, Alex Kidd in Miracle World da memória

Master System II, Alex Kidd in Miracle World da memória

A minha sorte nesse caso é que o Master System II da Tec Toy é uma das melhores versões do console no Brasil. Mas com outros consoles eu já fiquei um tanto dividido entre a melhor versão tecnicamente e aquela que eu tive na minha infância, como contarei nos próximos artigos desta série, que escreverei caso vocês aprovem esse.

Mas deixando a nostalgia de lado, temos que responder a questão do título: qual é a melhor versão do Master System? Vamos analisar friamente e detalhadamente a seguir.

O melhor Master System no Brasil sem modificações

Inicialmente vamos fechar um pouco o nosso escopo, considerando apenas os consoles lançados no Brasil e sem modificações. No caso do Master System são os modelos da Tec Toy.

A Tec Toy lançou uma grande quantidade de modelos de Master System, e logo de cara já podemos descartar todos aqueles modelos mais recentes que não usam mais o hardware original, mas apenas emuladores rodando em hardware de baixo custo mais recente. Eles tem uma série de incompatibilidades e todos os mais recentes nem tem mais o slot de cartuchos.

Dos Master System que usam o hardware original da Sega, temos o primeiro modelo, que inclui o primeiro Master System e o Master System II, e temos o segundo modelo, lançado no Brasil como Master System III.

O Master System III é uma revisão feita para cortar custos. Nela deixaram de lado a saída A/V, de melhor qualidade, e ficou apenas a horrenda saída de RF, com todas as suas interferências. Na época nem toda TV tinha entradas A/V, mas todas tinham entrada de antena, o que acaba justificando a escolha da Tec Toy.

É possível fazer um mod e obter A/V no Master System III? Sim. Mas lembre-se que estamos escolhendo a melhor versão sem modificações. Então mods não estão sendo considerados.

Além disso, no Master System III removeram o botão RESET e a entrada de óculos 3D e cartões. No Brasil não tivemos jogos em cartões, mas o Óculos 3D foi lançado e a Tec Toy investiu no marketing dele. É uma perda considerável. Então tecnicamente o Master System III fica descartado como melhor console.

Restam então apenas o Master System original e o Master System II. Eles são quase idênticos, a diferença perceptível é apenas na BIOS e no jogo incluso na mesma.

No Master System original temos Hang On & Safari Hunt, no Master System II temos o Alex Kidd in Miracle World. Eu gosto de ambos, mas tenho uma preferência pelo segundo. Porém não sei se o jogo na memória deveria ser usado para definir a melhor versão, ainda mais se houver outras formas de joga-lo.

Hang On & Safari Hunt é um jogo que também foi lançado em cartucho, até onde eu sei sem qualquer modificação, porém esse cartucho não foi lançado no Brasil, então quem tem um Master System II precisa de um cartucho importado ou de um Everdrive.

Master Everdrive X7 Deluxe e sua caixinha.

Master Everdrive X7 Deluxe e sua caixinha.

Por outro lado, o Alex Kidd in Miracle World foi lançado em cartucho inclusive no Brasil, mas a versão da BIOS é diferente. Nela os botões de soco e pulo estão invertidos, deixando o botão de pulo à direita e o de soco à esquerda, como é o mais convencional nos jogos do gênero. Além disso, trocaram o bolo de arroz que o Alex Kidd come no final de cada fase por um hambúrguer, dando aquela americanizada básica no jogo. Quem tem um Master System original só pode jogar essa versão com um Everdrive e um dump da BIOS com um pequeno hack, pois tal versão nunca foi lançada em cartucho.

Hang On & Safari Hunt é um jogo relativamente pequeno, ocupando pouco espaço em uma ROM de 1 Mega (128 Kbytes). Deste modo, sobrou espaço para a SEGA incluir o joguinho escondido da cobrinha (Snail Maze) o logotipo animado da SEGA com o famoso jingle de dois tons, que aparece sempre que o console é ligado, antes que o jogo do cartucho, do cartão, ou da BIOS seja iniciado.

No Master System II o Alex Kidd in Miracle World é um jogo maior, ocupando quase toda a ROM de 1 Mega, de modo que o joguinho escondido não pôde ser incluído, e o logotipo animado com jingle foi substituído por uma versão mais simples: estática e sem som.

Então nesse caso eu diria que o primeiro Master System é o vencedor. Deixando toda nostalgia de lado, esse é o console que eu escolheria dentre os consoles da Tec Toy.

Para não dizer que o primeiro modelo é melhor em tudo, cabe destacar que há alguns jogos da Tec Toy que supostamente não funcionam no primeiro modelo: Street Fighter II, Sítio do Pica Pau Amarelo, Sonic Blast, e talvez outros. Aparentemente o problema está relacionado com a BIOS e os mappers que acessam memória acima dos 4 Mega, pois estes jogos tem 8 Mega. Eu não tenho esses cartuchos e não sei dizer em quais modelos específicos eles funcionam ou não funcionam, mas sei que eles funcionam normalmente através de um Everdrive.

Master System II rodando o Street Fighter II com o Master Everdrive

Master System II rodando o Street Fighter II com o Master Everdrive

O melhor Master System no mundo, sem modificações

Quando abrimos o leque e passamos a considerar também outras versões do Master System no mundo, rapidamente o modelo brasileiro da Tec Toy deixa de ser o mais interessante.

O primeiro modelo do Master System nos EUA tem uma grande vantagem sobre o modelo brasileiro: ele tem saída de vídeo RGB nativa. No Master System americano a saída se dá por um jack DIN, tal qual o primeiro modelo do Mega Drive (inclusive no Brasil). Esse jack tem o sinal de áudio, de vídeo composto e também os componentes vermelho, azul, e verde individualmente, além de um sinal de sincronização.

Com um cabo adequado, podemos extrair esse vídeo, converte-lo para vídeo componente ou usar um processador de vídeo como o OSSC ou o Framemeister para obter uma imagem de excelente qualidade em uma saída HDMI, para TVs modernas.

OSSC, em funcionamento.

OSSC, em funcionamento.

Dá para extrair RGB dos Master System da Tec Toy fazendo modificações internas, mas lembre-se: estamos escolhendo a melhor versão sem modificações. Nunca entendi porque a Tec Toy optou por trocar o jack DIN da saída de vídeo por um par de saídas RCA que disponibiliza apenas o vídeo composto. Corte de custos talvez. E bisonhamente usaram um jack DIN para a entrada da fonte, que no Brasil é diferente da americana. Ela usa 3 pinos do plug DIN que aparentemente entregam duas tensões diferentes: 9V e 16V, além do terra.

Outro Master System de interesse seria o japonês, o único que tem o chip da Yamaha para produzir áudio FM nos jogos que o suportam (Yamaha YM2413). O áudio FM é bastante diferente do PSG que nos acostumamos no restante do mundo. Porém, cabe lembrar que o console japonês usa cartuchos com formato e pinagem diferente, e é preciso usar um adaptador para poder usar cartuchos ocidentais.

Além disso, alguns jogos checam a versão do console, e podem agir de forma diferente no console japonês, mostrando um título diferente. Não me recordo agora se tem algum jogo que mostra texto em japonês quando no console japonês. Isso poderia ser uma desvantagem.

Também cabe destacar que as BIOS americanas e europeias são mais restritivas, exigindo uma string de copyright nas ROMs. Essas strings não estão presentes nos jogos de SG-1000 e em algumas (ou todas?)  ROMs japonesas, de modo que para jogar esses jogos em um console ocidental é preciso usar um Master Everdrive. As BIOS japonesas, por outro lado, não fazem essas checagens e executam qualquer coisa.

Por fim, os consoles europeus à princípio não são muito interessantes por causa do sistema PAL e dos 50 Hz, que deixam alguns jogos executando mais lentos, dentre outras limitações. Novamente, é algo que poderia ser resolvido com modificações, mas estou deixando-as de lado nessa escolha.

E aqui eu não vejo um claro vencedor. Se dinheiro e espaço não fossem problemas eu certamente teria um console americano e um japonês na minha coleção. Ambos tem suas vantagens com relação ao modelo brasileiro.

O melhor Master System com modificações

Quando os mods são colocados na mesa, é possível contornar a maioria das limitações de modelos específicos. No caso da saída RGB, ela pode ser adicionada nos consoles da Tec Toy, tanto do primeiro modelo quanto do segundo.

No caso do áudio FM, existe uma plaquinha projetada pelo Tim Worthington que pode ser adicionada na porta de expansão do Master System, que nunca foi usada oficialmente. Porém é preciso soldar alguns fios na placa, então essa plaquinha também é um mod.

Por fim, para os consoles europeus, há um mod para que possam utilizar 50 Hz ou 60 Hz, de maneira selecionável.

Um Master System americano do primeiro modelo com o mod de FM provavelmente seria minha opção de console modificado.

Mas eu não sou muito favorável à modificações à menos que sejam a única forma de obter algum recurso. Se existe uma alternativa viável sem modificações, eu costumo preferir. Na próxima seção falarei sobre essas alternativas.

Soluções que não precisam de modificações

Eu gosto de manter meus consoles o mais originais possíveis. Por conta disso, sempre que há uma alternativa razoável para evitar um mod, eu prefiro a alternativa.

No caso da saída RGB, a solução que eu usava era simplesmente usar um Mega Drive. Todos os Mega Drive com hardware original tem saída RGB nativamente, inclusive os da Tec Toy (exceto pelos modelos que não usam o hardware original e rodam os jogos por emulação).

O Mega Drive tem o mesmo chip principal do Master System, o Z80, como co-processador de áudio. Ele também pode ser usado para executar os jogos de Master System nativamente. Como o formato dos cartuchos é diferente é necessário usar um adaptador. A Sega fabricou um adaptador oficial que a Tec Toy vendia no Brasil. Ele ainda pode ser encontrado no mercado de usados. O adaptador da Sega inclui a entrada de cartões e óculos 3D e um botão de pausa.

Uma alternativa moderna que ainda está no mercado é o PowerBase Mini FM, porém ele não tem a entrada de cartões e óculos 3D como o modelo oficial da Sega. Por outro lado, ele tem um chip Yamaha YM2413 e permite usar o áudio FM dos jogos.

PowerBase Mini FM com Master Everdrive conectado e em funcionamento

PowerBase Mini FM com Master Everdrive conectado e em funcionamento

Uma outra alternativa para jogar jogos de Master System no Mega Drive é usar um Mega Everdrive ou um MegaSD. Ambos podem executar jogos de Master System no Mega Drive. Apenas os jogos que usam o óculos 3D ficam de fora com essa solução. O Mega Everdrive executa inclusive as BIOS do Master System, então dá até para matar a saudade da animação e do jingle da Sega.

Jogos de Master System que utilizam a Pistola Light Phaser no Mega Drive com o Mega Everdrive: Safari Hunt

Jogos de Master System que utilizam a Pistola Light Phaser no Mega Drive com o Mega Everdrive: Safari Hunt

Hoje eu tenho jogado Master System principalmente no Mega Sg, o console da Analogue que implementa o Mega Drive, Master System, Game Gear, SG-1000 e ColecoVision em FPGA, e oferece imagem e sons cristalinos através de sua saída HDMI. Ele executa os cartuchos originais com o uso de um adaptador incluso (ou de outros adaptadores do mercado). E com o firmware jailbreak também é possível executar os jogos à partir da imagem de suas ROMs em um cartão SD. O Mega Sg também executa as BIOS do console, para quem gosta de ver as introduções ou quer jogar os jogos que vinham na memória.

Os dois receptores de 8BitDo M30, conectados em meu Analogue Mega Sg.

Quanto ao áudio FM do Yamaha YM2413, hoje há várias formas de aproveita-lo sem precisar fazer um mod. A primeira solução que usei foi o já citado PowerBase Mini FM. Ele tem um Yamaha YM2413 discreto internamente, e pode ser usado com cartuchos de Master System ou com um Master Everdrive.

Hoje o Mega Everdrive e o MegaSD também implementam o YM2413 em suas respectivas FPGAs. São soluções que eu prefiro, pois apresentam menos ruído que um YM2413 de verdade.

Por fim, o próprio Mega Sg também implementa o YM2413 em FPGA, mas sua implementação ainda tem bugs que deixam notas faltando em alguns jogos específicos, como o Rastan. É um bug que espero que seja corrigido logo.

Para quem faz questão de ouvir o som FM no próprio Master System e sem modificações, existe o NEO SEGA MKiii 256M Myth flash cart. Ele tem entradas e saídas de áudio e vídeo, de modo que o som do console passar por ele e ele faz a mixagem sem que seja necessário soldar fios internamente. É uma solução que eu não tenho, então não posso dizer quão boa ela é.

Note que não é possível implementar o áudio FM no Master System apenas com um cartucho, como ocorre no Mega Drive, pois o Master System não tem um canal de entrada de áudio analógico no slot de cartuchos. É por isso que a mixagem precisa ser feita via mod ou como no cartucho flash já citado. O Mega Drive tem um canal de entrada de áudio analógico, de modo que um cartucho FPGA pode enviar o som pronto para o Mega Drive apenas mixar.

Considerações Finais

Estou satisfeito com o meu Master System II da Tec Toy e não pretendo adquirir outro. Na verdade eu tenho jogado os jogos de Master System muito mais no Mega Sg do que no próprio Master System. O Mega Sg fica ligado na TV LCD 4K da sala e o Master System fica ligado via vídeo composto em uma TV CRT.

Mas de vez em quando eu ainda jogo com o Master System, principalmente quando quero jogar os jogos que usam a Pistola Light Phaser, pois a tecnologia dela só funciona com TVs CRT.

E como eu sempre digo, se eu tivesse dinheiro e espaço ilimitado, eu teria outros Master System na minha coleção, começando pelo modelo original americano. Mas não abriria mão do Master System II da Tec Toy, por ser o modelo que eu tive na minha infância.

E você? Qual é o seu Master System preferido? Nos conte aí nos comentários.

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Iuri Fiedoruk
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Iuri Fiedoruk

Grande problema da versão nacional foi o tilte mental de alguém da Tectoy que resolveu passar a energia pelos pinos que são usados pela saída multi-AV, matando o RGB do console. Uma idiotice sem tamanho, não só pela perda do RGB, não porque não faz nem sentido fisicamente, dado que já havia uma porta para power. Imagino que quiseram economizar em conectores e cabos, uma infelicidade.
No mais,e stou contente com meu Master 2, com mod RGB, o som FM não sinto falta, gosto das músicas originais mesmo.

HWS
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HWS

Em 1991 ganhei meu Master System 2 Tec Toy ( usado e bem surrado ). Por muito tempo eu só tive o jogo na memória para jogar (alugava alguns jogos às vezes, mas sempre joguei o Alex Kidd também). No meu Alex Kidd in Miracle World ele comia o bolinho de arroz e os botões eram invertidos ( Pulo no 1 e soco no 2), e ainda tinha o jingle da Sega como no Master System 1. Não sei se era a primeira leva de Master System 2 que a Tec Toy colocou no mercado era assim ou se o antigo dono fez algo nele, mas acho difícil já que em 1991 não tinha esse acesso a informação que temos hoje e internet nem existia, muitos nem computador tinham.
Parabéns pelo Skooterblog, tempos que leio as matérias e hoje resolvi comentar.

Iuri Fiedoruk
Visitante
Iuri Fiedoruk

Bem lembrando. Um primo meu tinha um Master com Alex Kid que também tinha os botões invertidos. Nunca vi um que o dois seja o pulo, por sinal.
O meu é o modelo com Hang On e Safari Hunt

Jack
Visitante
Jack

Excelente artigo!! Como sempre!! Eu sempre tive essa dúvida, não sabia 100% a diferença entre os MASTER I e o II da TEC TOY… Via muitas explicações por aí em fóruns, mas tudo um “achismo” q, sinceramente, mais confundia do que atrapalhava. Ótima explicação sobre a diferença entre os MASTERs SYSTEMs, principalmente o lance da BIOS com logo animado, e o detalhe dos comandos “invertidos” do Alex Kidd na rom interna – q pra mim deveria ser assim tb na rom do cartucho, já que a imensa maioria dos jogos da época seguia esse padrão. Eu bugo toda vez q quero jogar a rom do Alex Kidd! kkkk E eu quero o console com o logo animado! 🥺 Quero ligar o MASTER e aparecer isso! kkkk Nem imaginava q o logo animado da SEGA só tem no primeiro… E é esse q sonho ter! Não sabia q o II não tem! 😳 Quando eu jogava no meu primo, aparecia o logo… então ele tinha o I… Nostalgia é foda… Pende muito na balança! kkkkk Obrigado, Skooter! Uma dúvida: no MASTER SYSTEM II (estamos falando do mundo TEC TOY), será q é possível de alguma maneira “simular” essa bios com logo… Read more »

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